Passageira de mim



calçadão

 

um menino
uma fome
um vazio
:
uma bomba
prestes a ferir o silêncio da omissão

 

o derrame
de medo dos passantes
tingindo de vermelho
a brisa caída

 

e a violência
batendo na cara
das camadas de acomodação

 

Escrito por euza noronha

elos

 

essenciais
não são as rimas
nem a métrica
dos olhos

 

essenciais
são os elos
que tecidos à maneira de teia
juntam sentidos e sentimentos
e fazem beijar-se
os diferentes olhares

 

Escrito por euza noronha


lembranças 

 

uma manhã de nuvens
cheirando verão
as paredes prendendo
o silêncio do tempo
o relógio chorando
os minutos iguais
e a espera deitando
no prato de arroz

 

uma tarde chuvosa
beirando natal
o chão dormitando
na enchente do rio
um sino brincando
de sete marias
e a boca adoçando
geléia de jiló

 

uma noite pingando
dentro e fora do mito
o espelho frustrando
a esperança do rito
o lenço enxugando
dormentes de trem
o adeus respingando
promessas no vento

 

e o tempo partido
derivando pra vida

Escrito por euza noronha

Desfecho


de tanto
embebedar-se
de sementes
regadas
em fio de navalha
o poeta
milagrou:

madurou frutos
onde a bela adormecida
planta bananeira
e flores de plástico

 

 

Escrito por euza noronha

in picture

sobre a mesa
o passado amarrota o dia

à janela
olhar ensaia vôo cego

sons de saudosismo
desafinam o presente

silêncio cala a alma
:
o amanhã
vira pássaro de asas feridas

Escrito por euza noronha

norte de minas

comendo chão
vai o pai
vai a mãe
vão os filhos

dentro deles
vai a foice
dilacerando o estômago

(enquanto me lambuzo
de chocolate e consternação)

 

Escrito por euza noronha

constatação

quando deixa-se
de amar
não há como insistir
:tem que se colher
os espinhos
da despedida

e ainda
de alma dormente
de quimera despida
vazia
tem que se reconhecer
e se abraçar

depois
livre e lenta e nua
buscar o amanhecer
dos dias esquecidos

contando consigo

 

 

 

Escrito por euza noronha

ecos do silêncio

solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo

do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos
e dedilha alucinadamente
o fio da navalha

Escrito por euza noronha

um quase bucolismo

laranjeiras
goiabeiras
mangueiras
e passarinhos
em onomatopéia outonal

frutas no chão
adubando vaidades

nos olhos compridos
do garoto
o catecismo:
a terra é de deus

em algaravia de zumbidos
a cerca vai desmentindo:
é
do

diabo
do
dono

 

Escrito por euza noronha

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